quinta-feira, 2 de abril de 2015

Osho fala sobre a morte de Krishnamurti - II

Qual é a sua ligação com Krishnamurti?

É um verdadeiro mistério. Eu o amo desde que o conheço, e ele foi muito amoroso em relação a mim. Mas nós nunca nos encontramos; portanto, o relacionamento, nossa conexão é algo além das palavras. Nós nunca nos vimos, mas mesmo assim... talvez tenhamos sido as duas pessoas mais próximas do mundo todo. Tivemos uma tremenda comunhão que não precisou de linguagem, nem de presença física...

Você me pergunta sobre minha ligação com ele. Foi a conexão mais profunda possível — que não precisa de contato físico, não precisa de comunicação linguística. Não só isso, de vez em quando eu o criticava e ele me criticava, e nós apreciávamos as críticas um do outro — sabíamos muito bem que o outro não tinha a intenção.

Agora que ele está morto, vou sentir sua falta pois eu não não serei capaz de criticá-lo; isso não seria certo. Era muito bom criticá-lo. Ele foi o homem mais inteligente do século XX, mas não foi compreendido pelas pessoas.

Ele morreu e o mundo parece seguir seu caminho, sem se dar conta que o homem mais inteligente já não está mais aqui. Vai ser difícil encontrar aquela agudez e aquela inteligência por muitos séculos. Mas as pessoas são sonâmbulas, mal notaram. Nos jornais, nos espaços que ninguém lê, sua morte é noticiada. E parece que esse homem de noventa anos, que falou continuamente por quase setenta, perambulando ao redor do mundo, tentando ajudar as pessoas a se descondicionarem, a se tornarem livres — parece que ninguém mesmo irá render tributo àquele que tão arduamente trabalhou para a liberdade do homem, para a dignidade do homem.

Eu não lamento sua morte. Sua morte é bela; ele atingiu tudo o que a vida é capaz de oferecer. Mas eu certamente sinto pena do mundo que vai continuar sem maiores voos de consciência, seus picos mais altos, suas estrelas mais brilhantes. O mundo está mais preocupado com a trivialidade.

Eu sinto uma afinidade tão profunda com Krishnamurti que dizer conexão não soa certo; conexão só é possível entre duas coisas separadas. Sinto-me quase em unidade com ele. Apesar de todas as suas críticas, apesar de todas as minhas críticas — que apenas brincavam com o velho, provocavam o velho... e ele era fácil de provocar...

O ensinamento de Krishnamurti é belo, mas muito sério. Na minha experiência, do jeito que eu sinto, os seus setenta anos foram um desperdício por ele ser sério. Então, só gente de cara comprida, que sofria, que era séria se reunia em torno dele; ele era um coletor de cadáveres, e enquanto ele envelhecia, os cadáveres envelheciam junto.

Conheço pessoas que foram ouvi-lo durante toda a sua vida; eles são tão idosos quanto ele. Eles ainda vivem. Conheço uma mulher de noventa e cinco além de muitas outras pessoas. Uma coisa que eu vi em todas elas, que lhes é comum, é que são sérias demais.

A vida precisa de um pouco de brincadeira, um pouco de humor, um pouco de risada.

É só neste ponto em que estou em absoluto desacordo com ele; fora isso, ele era um gênio. Ele penetrou o mais fundo possível em todas as dimensões da espiritualidade humana, mas é tudo como um deserto, cansativo. Eu gostaria mais que todos voltassem ao jardim do Éden, inocentes, não sérios, como crianças pequenas brincando. A existência inteira é brincalhona. Toda esta existência é cheia de humor; é só ter senso de humor e a gente se surpreende... A existência é hilária. Tudo vibra no estado de espírito da dança, a gente só precisa estar no mesmo estado para compreendê-­lo.

Eu não lamento que J. Krishnamurti tenha morrido; não havia nada mais para ele atingir. Lamento que o seu ensinamento não tenha atingido o coração humano, por ser muito seco, sem humor, sem riso.

Mas você vai ficar surpreso ao saber — o que quer que ele dissesse era contra as religiões, contra a política, contra o status quo, contra o passado e, ainda assim, ninguém o condenava pela simples razão dele ser ineficiente. Não havia nenhuma razão para que o notassem...

Krishnamurti falhou porque ele não conseguiu tocar o coração humano; ele só conseguia alcançar a cabeça humana. O coração precisa de algumas abordagens diferentes. Era nisto que eu divergi toda a minha vida: enquanto o coração não for atingido, você pode ficar repetindo belas palavras como um papagaio —­ elas não significam nada. O que quer que Krishnamurti dissesse era verdade, mas ele não conseguia fazer com que isto se relacionasse ao coração. Em outras palavras, o que eu estou dizendo é que J. Krishnamurti foi um grande filósofo, mas ele não conseguiu se tornar um mestre. Ele não conseguiu ajudar as pessoas, preparar as pessoas para uma nova vida, uma nova orientação.

Mas ainda assim eu o amo, porque entre os filósofos ele é o que mais se aproximou do caminho místico da vida. Ele próprio evitou o caminho místico, ignorando-o, e esta é a razão de seu fracasso. Mas ele é o único entre os pensadores contemporâneos modernos que chega muito perto, quase na linha de limite do misticismo, e pára por aí. Talvez ele tenha tido medo de que, ao falar sobre misticismo, as pessoas começassem a recair em padrões antigos, nas velhas tradições, nas antigas filosofias do misticismo. Este medo o impediu de adentrar. Mas este medo também impediu outras pessoas adentrarem nos mistérios da vida...

Eu conheci milhares de seguidores de Krishnamurti — porque qualquer um que tenha se interessado em Krishnamurti, mais cedo ou mais tarde, acabava obrigado a seguir caminho em direção a mim, pois quando Krishnamurti os abandona, tomo-os pelas mãos e os levo ao santuário mais íntimo da verdade. Você pode dizer que a minha ligação com Krishnamurti está no fato de que ele preparou o terreno para mim. Ele preparou pessoas intelectualmente para mim; agora é o meu trabalho levar aquelas pessoas mais fundo do que o intelecto, até o coração; e mais fundo do que o coração, até o ser.

Nosso trabalho é um. Krishnamurti está morto, mas seu trabalho não estará morto até que eu tenha morrido. Seu trabalho vai continuar.

Osho 




Tradução: Helio Biesemeyer


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